De Literatura e outras Mentiras

Esse blog tem por finalidade aprimorar as possibilidades de comunicação com os alunos e ex-alunos das disciplinas do Professor Ricardo Martins Valle
e com os envolvidos no Projeto de Extensão Continuada Difusão de Repertórios e Rotinas de Leitura, do Departamento de Estudos Lingüísticos
e Literários, da UESB-Vitória da Conquista.

Neste semestre, temos: Literatura Portuguesa II (séculos XV-XVI) e Literatura Brasileira III (século XVIII),
além do início das Rotinas de Leitura da Ilíada de Homero e dos Diálogos de Platão.

No rodapé desta página (lá no mais fundo subsolo deste gramado), você encontrará links para acervos virtuais
de obras de nosso interesse. Não deixe de conferir e de sugerir novos links da mesma natureza.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Eutífron de Platão no início das noites de sexta

Como tem havido muitos alunos demonstrando interesse pelas Rotinas de Leitura, vamos adiantar o início do grupo de leitura dos Diálogos de Platão (que estava programado para abril ou maio), a fim de que já possa haver duas opções de horário e de assunto. Assim, as pessoas talvez possam distribuir-se melhor entre dois grupos, que, aliás, esperamos serem constituídos não só por alunos de Letras, mas também de outros cursos da UESB, além do público em geral, já que se trate de um Projeto de Extensão.

O primeiro diálogo a ser lido será o Eutífron. Não se trata de um diálogo muito conhecido, mas é o primeiro diálogo da primeira tetralogia de Trasilo. Trasilo, esse ilustre desconhecido para nós, é um nome importante na tradição neoplatônica da Academia, um dos propositores de uma determinada ordem em que os diálogos provavelmente foram ensinados em alguns momentos e lugares, entre o final da assim chamada Antiguidade e o início da era cristã.

Não se trata nem da única, nem da principal classificação dos diálogos. Existem, por exemplo, as trilogias de Aristófanes de Bizâncio, que também organiza os diálogos como séries de lições didaticamente pensadas. Este, evidentemente, não era o famoso Aristófanes das Comédias e personagem do Banquete, de Platão, porque Aristófanes de Atenas era contemporâneo, além de inimigo declarado de Sócrates, sendo, portanto, um pouco anterior ao próprio Platão e incompatível com um "sistema socrático" que é o que os Diálogos de Platão constituem para a posteridade. Como sabemos, além de ridicularizar Sócrates, na comédia As nuvens, Aristófanes, o Cômico, assina com outros atenienses a petição que levaria à condenação de Sócrates perante o Tribunal de Atenas.

Aliás, é esta a circunstância narrativa do diálogo Eutífron: Sócrates encontra o vidente ateniense que dá nome ao diálogo em frente ao Tribunal, porque acabara de ser "intimado", como se diz hoje. O tema do diálogo gira em torno da definição do que é justo e do que é santo, e da necessidade tipicamente platônica de se pensar um Bem universal, para além dos bens particulares, os quais a inteligência não seria capaz de reconhecer (ao menos não filosoficamente), se não buscar conhecer o Bem em geral. É este, enfim, provavelmente o tema mais recorrente nos Diálogos, senão o tema central dos Diálogos. Nitidamente, porém, o Eutífron é voltado para não iniciados, sendo muito curto, com cerca de 20 páginas apenas. Ao mesmo tempo, é bem pouco complexa a disputa dialógica entre o filósofo e o vidente, se comparada com a República, por exemplo, que gira em torno desses temas ao longo de cerca de 400 páginas!

Tanto a classificação de Aristófanes de Bizâncio quanto a de Trasilo devem ter tido suas tradições particulares, cujos desdobramentos mais específicos não nos interessam aqui. Nos dois casos, são classificações que envolvem uma determinada ordem para ler os diálogos, como ficou dito. Existem ainda outras formas antigas de classificar os diálogos que não por uma ordem de leitura do mais simples ao mais complexo. Algumas classificações são conformes à natureza do assunto (diálogos éticos e teoréticos, por exemplo), outras conforme a forma discursiva (diegeséticos e miméticos), e assim por diante, dependendo das épocas e dos comentadores em questão.

Aqui foi escolhida a ordem de Trasilo, apenas por ser a porta de entrada que, um dia, eu escolhi para reler os diálogos com mais sistema. Também porque a ordem assim disposta me pareceu eficaz para chegar (bem mais tarde) à leitura de textos extensos e complexos como os livros da República e das Leis. Nesta sequência de tetralogias, os diálogos demonstram ser uma espécie de "sistema de ensino" que parece conduzir os não iniciados à iniciação e penetração neste sistema místico-jurídico tão influente sobre toda a era cristã, de que fazemos parte.

Com efeito, a filosofia de Platão foi ensinada por diversas formas, durante quase um milênio (aproximademente entre os séculos V a.C e V d.C), tendo diversos intérpretes ligados quase sempre à instituição escolar ateniense fundada por Platão, mas também fora dela, entre os assim chamados Padres da Igreja, por exemplo, e entre incontáveis outros fora da ortodoxia católica.

A famosa Academia, de onde, entre tantos outros, saiu Aristóteles para fundar o seu Liceu, recebeu, durante os séculos de supremacia latina no Mediterrâneo, cidadãos romanos ilustres para estudar grego e filosofia grega. Este refinamento básico para a "casta" de optimates de Roma visava à educação dos filhos das famílias principais do Império em plena expansão belicosa, os quais filhos constituiriam as classes políticas que viriam a governar a Cidade, seus exércitos, suas colônias, como membros de uma oligarquia senatorial republicana, antes da centralização operada por Júlio César e Otávio Augusto.

Um caso destes é o nobre e distinto Brutus, o tão conhecido assassino republicano de Júlio César, além de amigo e correligionário de Cícero. Brutus dá título a um dos livros sobre Retórica deste último, e é também seu interlocutor em outros textos ciceronianos igualmente importantes. O próprio Cícero, que manteve professores gregos em sua casa e também pertencia à nobreza senatorial romana, menciona a educação ateniense do amigo Brutus, no livro de mesmo nome, referindo particularmente seu conhecimento em dialética, por ter passado justamente pela Academia, que então já tinha cerca de quatro séculos de existência.

É óbvio que não é preciso escrever uma linha sequer para justificar a importância dos Diálogos, mas é preciso enfatizar que aqui não se pretende repor acriticamente mistificações românticas da filosofia grega, nem repetir o elogio da "grandeza" desse sistema filosófico antigo. Basicamente o que esta breve e imprecisa exposição pretende é fazer ver que Platão esteve na base da constituição de muito poder, na legitimação de máquinas de guerra estatais que vão do Império Romano às destrutivas democracias de mercado globalizadas. Estas se apóiam na falácia da pseudo-etimologia do termo democracia, por exemplo, com o fito de legitimar todas as mais brutais violências e enganos da mundialização do valor monetário, como se viu nas fraudes anglo-americanas que justificaram invasões desastrosas no Oriente Médio entre as últimas décadas do século XX e início do XXI.

2 comentários:

Unknown disse...

como eu já ouvi por aí, para derrotar seu inimigo (o sistema) é preciso conhece-lo.

Ricardo Martins Valle disse...

A idéia é essa. E digamos que, como um sistema de informática, o "nosso sistema" roda sobre Platão: como um determinado programa de computador roda em tal sistema operacional. Platão é uma espécie de grande organon dos nossos sistemas semânticos, um vocabulário básico do mundo mental que a Europa levou para todo canto, junto com mercadoria, guerra e extração de valor.